O filho outro dia comentava sobre um pé alheio graciosamente deformado no sinal com um "Ufa, escapei, pai" o sentimento nobre de escapar do acaso. Estar continuamente apenas fazendo isso, escapando e regojizando-se com a sorte lotérica de safar-se de maus bocados patológicos. Outro ponto para a religião que vem ao encontro desse nosso desejo simplificador de tentar dar ordem ao caos (e esse é o começo de deus no gênesis se não me falha a memória) relutando em aceitar a realidade do mesmo acaso na vida.
Aceitá-lo é inicialmente aterrorizante mas depois confortador, tanto quanto a idéia que uma força sobrenatural tem o poder (e o tempo livre) de poupar-nos de encefalopatias, síndromes alemãs e outras coisitas más.
E dentro de tudo isso, efetivamente o quê, e não apenas quem somos nós. Afora o mundo paralelo inconsciente, de sintaxe tão pouco compreendida, revestido de mitos e obscuridades, será o próprio corpo palpável a representação física do que somos? Basta uma injeção de qualquer substância natural ou sintética para que não nos sejamos mais. Mais potássio, menos dopamina, uma pitada a mais de hormônio numa hora imprópria e voilá... tudo se foi.
Incontáveis exemplos diários demonstram as possíveis impurezas do metal de que somos forjados no constante bater do martelo na bigorna do tempo, da jazida de ferro misturada, do fogo em temperatura além ou aquém do necessário ou simplesmente do braço com força insuficiente para dar tempera nosso corpo.
Sacos de produtos químicos em constante luta pela estabilidade. E resta pouco conforto com esse acaso que não tem nada de cruel conquanto apenas aleatório a não ser estar simplesmente vivo. E onde fica a alma em tudo isso?
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