segunda-feira, 7 de setembro de 2009
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
mon pére
Espero que o dia em que este velho não seja mais o mesmo, tenhas paciência e me compreendas.E quando deixar cair comida sobre a minha camisa e esquecer como se faz o laço no atacador do meu sapato, tenhas paciência comigo e lembra-te das horas que passei ensinando-te essas mesmas coisas.Se quando conversares comigo eu repetir as mesmas histórias, não me interrompas e escuta-me.Quando eras pequeno, para que dormisses, tive de contar milhares de vezes as mesmas historias até tu fechares os teus olhinhos.Quando estivermos reunido e sem querer fizer as minhas necessidades, não fiques com vergonha.Espero que compreendas que não tenho culpa disso, pois já não as posso controlar. Pensa quantas vezes pacientemente, troquei as tuas roupas para que tivesses sempre limpo e cheiroso.Lembra-te que fui eu quem te ensinou tanta coisa...Comer , vestir e como enfrentar a vida tão bem como hoje o fazes. Isso é o resultado do meu esforço e da minha perseverança.Se em algum momento quando conversarmos eu esquecer-me do que estavamos a falar, tem paciência comigo e ajuda-me a lembrar.Talvez a unica coisa importante para mim naquele momento, seja o facto de te ver perto de mim e dando-me atenção e não o que falávamos.Se alguma vez eu não quiser comer,espero que saibas insistir com carinho assim como fiz contigo.Espero que compreendas que com o tempo não terei dentes fortes nem agilidade para engolir.E quando as minhas pernas falharem por estarem tão cansadas e eu não conseguir mais equilibrar-me...Com ternura dás-me a tua mão para me apoiar, como eu o fiz quando começas-te a caminhar com as tuas perninhas tão frageis.Se algum dia me ouvires dizer que não quero mais viver, não te aborreças comigo.Algum dia entenderás que isto não tem a ver com o teu carinho ou com quanto te amo.Espero que compreendas que é dificill ver a vida abandonando aos poucos o meu corpo, e que é duro admitir que já não tenho o mesmo vigor para correr ao teu lado.Sempre quis o melhor para ti, e sempre me esforcei para que o teu mundo fosse sempre mais confortavel, mais belo, mais florido.E até quando eu me for,construirei para ti outra rota em outro tempo mas estarei sempre contigo e zelando por ti.Não te sintas triste ou impotente por me veres assim.Não me olhes com cara de dó.Dá-me apenas o teu coração.Compreende-me e apoia-me, como eu fiz quando começaste a viver. Isso me dará forças e muita coragem.Da mesma maneira que te acompanhei no inicio da tua jornada, peço-te que me acompanhes para terminar a minha.Trata-me com amor e paciência, e eu te devolverei sorrisos e gratidão, com imenso amor que sempre tive por ti ...
mon fille
Close your eyes,
Have no fear,
The monsters gone,
He's on the run and your daddy's here,
Beautiful,Beautiful, beautiful,Beautiful Boy,
Before you go to sleep,
Say a little prayer,
Every day in every way,
It's getting better and better,
Beautiful,Beautiful, beautiful,Beautiful Boy,
Out on the ocean sailing away,
I can hardly wait,
To see you to come of age,
But I guess we'll both,
Just have to be patient,
Yes it's a long way to go,
But in the meantime,
Before you cross the street,
Take my hand,
Life is just what happens to you,
While your busy making other plans,
Beautiful,Beautiful, beautiful,Beautiful Boy,
Darling,Darling,Darling Leo.
sábado, 22 de agosto de 2009
Dostoievski humano
Eu sou um homem doente... Sou um homem malvado. Sou um homem desagradável. Creio que tenho uma doença do fígado. Aliás, não compreendo absolutamente nada da minha moléstia e não sei mesmo exatamente onde está o mal.
Não me cuido, nunca me cuidei, se bem que estime os médicos e a medicina. Demais, sou extremamente supersticioso, o bastante, em todo caso, para respeitar a medicina (sou bastante instruído: poderia então não ser supersticioso, mas sou). Não! se não me trato, é pura maldade de minha parte. Não sabereis certamente compreender. Pois bem! eu compreendo. Não poderei evidentemente explicar-vos em que errei, agindo tão malvadamente: sei muito bem que não são os médicos que eu incomodo, recusando-me a tratar-me. Não engano senão a mim mesmo; reconheço-o melhor que ninguém. Entretanto, é mesmo por malvadez que não me trato. Sofro do fígado! Tanto melhor! E tanto melhor ajuda se o mal piora.
(...) Fui funcionário, pedi demissão . Fui um funcionário muito ruim. Era grosseiro e tinha prazer em sê-lo. Podia bem me compensar desta maneira, pois que eu não aceitava gorjetas (esta brincadeira não tem graça mas não a suprimirei. Escrevi-a crendo que teria espírito; não a apagarei, entretanto expressamente; porque queria me dar ares de importância). Quando os solicitantes em busca de informaçoes se aproximavam da mesa diante da qual eu estava sentado, eu rangia os dentes; sentia uma volúpia indizível, quando conseguia causar-lhes algum aborrecimento. Conseguia-o quase sempre. Eram geralmente pessoas tímidas, acanhadas. Solicitantes, pois quê!(...)
(...) Ora sabeis senhores, o que excitava sobretudo minha raiva, o que a tornava particularmente vil e estúpida? É que eu me inteirava vergonhosamente, mesmo quando a minha bílis se esparramava violentamente, que eu não era mau homem, no fundo, não era mesmo um homem azedo, e que tomava gosto, muito simplesmente, em assustar os pardais. Tenho espuma na boca; mas, trazei-me uma boneca, oferecei-me uma chávena de chá bem doce, e é provável que eu me acalme; sentir-me-ei mesmo muito comovido. É verdade que, mais tarde, morderei os punhos de raiva, e de vergonha perderei o sono durante alguns meses. Sim, eu sou assim.
Marcadores:
notas do subsolo dostoievski homem hipocondria
Algumas passagens abertas
... inicialmente o passado é apenas uma sucesso de angústias e prazeres vulgares a que o tempo, novos anseios e novas angústias outorgam-lhe um prestígio retroativo.
Do benedetti in memorian
... o que vai acontecer com o elefante? Vai ser visto, aplaudido e depois esquecido, assim como tudo mais na vida, aliás a vida é isso, triunfo e olvido.
Do mago quase in memorian
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Membrana
Em cada bala de raspão biológica a que todos os dias somos atingidos ou preservados, de vírus, bactérias assassinas, cânceres que nos corroem por dentro, e que com uma inefável sensação de alívio pouco cristã mas completamente humana percebemo-nos vivos... ainda. Como diriam "o pulso ainda pulsa".
O filho outro dia comentava sobre um pé alheio graciosamente deformado no sinal com um "Ufa, escapei, pai" o sentimento nobre de escapar do acaso. Estar continuamente apenas fazendo isso, escapando e regojizando-se com a sorte lotérica de safar-se de maus bocados patológicos. Outro ponto para a religião que vem ao encontro desse nosso desejo simplificador de tentar dar ordem ao caos (e esse é o começo de deus no gênesis se não me falha a memória) relutando em aceitar a realidade do mesmo acaso na vida.
Aceitá-lo é inicialmente aterrorizante mas depois confortador, tanto quanto a idéia que uma força sobrenatural tem o poder (e o tempo livre) de poupar-nos de encefalopatias, síndromes alemãs e outras coisitas más.
E dentro de tudo isso, efetivamente o quê, e não apenas quem somos nós. Afora o mundo paralelo inconsciente, de sintaxe tão pouco compreendida, revestido de mitos e obscuridades, será o próprio corpo palpável a representação física do que somos? Basta uma injeção de qualquer substância natural ou sintética para que não nos sejamos mais. Mais potássio, menos dopamina, uma pitada a mais de hormônio numa hora imprópria e voilá... tudo se foi.
Incontáveis exemplos diários demonstram as possíveis impurezas do metal de que somos forjados no constante bater do martelo na bigorna do tempo, da jazida de ferro misturada, do fogo em temperatura além ou aquém do necessário ou simplesmente do braço com força insuficiente para dar tempera nosso corpo.
Sacos de produtos químicos em constante luta pela estabilidade. E resta pouco conforto com esse acaso que não tem nada de cruel conquanto apenas aleatório a não ser estar simplesmente vivo. E onde fica a alma em tudo isso?
Assinar:
Postagens (Atom)